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“Socorro!”: Novo filme de Sam Raimi equilibra terror e humor em narrativa de isolamento

  • podcastdepoisdoscr
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Por Willian Lira

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Em “Socorro!” (“Send Help!”), acompanhamos Linda Liddle, interpretada por Rachel McAdams, e Bradley Preston, vivido por Dylan O’Brien, funcionária e chefe, respectivamente, que após sobreviverem a acidente de avião acabam presos em uma ilha deserta. É nesse cenário que os papéis se invertem: quem antes era subordinada passa a assumir o controle da situação.


O que mais atrai na filmografia de Sam Raimi, especialmente em seus trabalhos de terror, é como ele é hábil em transitar entre gêneros de forma que torna seus filmes divertidos de serem acompanhados. Em “Socorro!”, isso se mantém.


Enquanto o diretor traz marcas características de sua cinematografia, como planos próximos, uma violência grotesca que se mistura com um humor mais pesado, o roteiro escrito por Damian Shannon e Mark Swift (“Freddy vs Jason”) trabalha na constante dinâmica da relação da dupla principal. Algo que será mais explorado ao decorrer do texto.


Um exemplo, sem dar spoilers comprometedores, está em como ambos trabalham para apresentar a personagem principal logo nas primeiras cenas. Na escrita, Linda é alguém com pouca habilidade social e noção das situações em que se mete. Enquanto isso, a direção, junto da atriz, traduz isso de forma visual, explorando sua  falta de traquejo e até sua maior “ousadia” em planos em primeira pessoa.


Outro destaque é como ele constrói a relação da dupla principal, entre eles e com o público. À primeira vista, a Linda pode não parecer o tipo de personagem que você se alia logo de cara, da mesma forma que ocorre com Bradley por seu jeitão de filhinho de papai. No entanto, quando ficam isolados na ilha e a dinâmica de poder se transforma, a aproximação com Linda acontece de forma natural. É ao poder exercer seu vasto conhecimento sobre sobrevivência que ela acaba “se encontrando” e assumindo a liderança. Enquanto isso, Bradley, que antes estava no topo da hierarquia, agora se vê totalmente dependente e isso o incomoda.


Essa virada é o que traz aquele “tchan” ao filme, tornando a narrativa mais envolvente e mantendo a atenção do espectador. O roteiro brinca com essa ambiguidade por boa parte da trama, te fazendo questionar várias vezes qual personagem realmente é digno ou não do seu apoio. Quando ele parece cair na monotonia de duas pessoas isoladas, o roteiro sabiamente encaixa situações que dão uma mexida na dinâmica. Situações que, por muitas vezes, te fazem gostar mais de um ou do outro, desgostar de um, olhar com desconfiança para o outro. Um exemplo é a cena da fogueira à noite: é um momento que, ao mesmo tempo que estreita a relação dos personagens, também te faz repensar quem realmente são essas pessoas que estamos acompanhando.


Conforme avança, esses momentos ajudam a sustentar um debate interessante sobre até que ponto alguém que foi oprimido, ao assumir o controle, mantém sua “razão” ou passa a repetir os mesmos erros de quem o oprimia.


É justamente dessa dinâmica de poder e sobrevivência que surge o humor e o terror do filme, e é aqui onde Sam Raimi brilha. Quem conhece o diretor por obras como a franquia “Evil Dead” e “Arraste-Me Para o Inferno”, sabe que ele tem um estilo de humor bem peculiar. As problemáticas que surgem do dia a dia dos personagens vários momentos que te fazem rir de situações em que você se pergunta se deveria estar rindo daquilo.


O longa abraça esse tom, equilibrando horror com situações cômicas que casam perfeitamente com a forma sórdida que Raimi tem de fazer rir. O que torna o longa divertidíssimo, proporcionando uma entretenimento que provoca um misto de sentimentos. Já o terror surge de forma mais pontual, até mais contida em comparação com outras obras do diretor, mas nunca deixa de ser algo que ora é engraçado, ora te dá aquela agonia. A pouca presença do terror de fato pode decepcionar algumas pessoas. Não foi o meu caso, já que a relação dos personagens era interessante o suficiente para me manter atento ao longa.


No elenco, os dois protagonistas se destacam bastante. De início, O'Brien parece apresentar somente a primeira camada do empresário rico, mas aos poucos vai demonstrando fragilidade, o que humaniza e nos aproxima dele. Ainda assim, o grande destaque é de Rachel McAdams. Sua Linda começa com um jeitão meio inconveniente, meio “Betty, a Feia”, mas é quando chega na ilha que vai surgindo uma maior liberdade na personagem, que vai ficando mais “soltinha”, de forma que faz você ficar rapidamente do lado da personagem.


Para não dizer que tudo é perfeito, existem alguns probleminhas de roteiro que ficaram comigo numa reflexão pós-filme. Apesar de esperto na construção da dinâmica entre os personagens, o roteiro não foge de ser derivado de diversas outras obras do cinema, como “Náufrago”, “A Lagoa Azul” e “Triângulo da Tristeza”. Não chega a ser uma cópia, mas às semelhanças são perceptíveis. Além disso, há certas conveniências e atalhos que o roteiro pega para chegar onde precisa. Como uma certa “coisa” que um personagem encontra na praia, momento que impulsiona o conflito final, mas que é bem conveniente de ter ido parar ali.


No geral, “Socorro!” é um prato cheio para quem adora o estilo do Sam Raimi de fazer filmes. Quer um filme com terror? Aqui tem. Quer um filme com um humor mais pesado? Aqui tem também. Quer uma história com personagens nebulosos? Tem também. É um filme que diverte, seja pelo humor ou pelo terror, provoca e ainda levanta reflexões, tudo isso sustentado por uma dupla de protagonistas muito bem trabalhada.


Nota: 8.


“Socorro!” está disponível no catálogo do streaming Disney+.

 
 
 

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