O espetáculo como uma obrigação: a régua desigual no pop feminino
- podcastdepoisdoscr
- 22 de abr.
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Texto por Pedro Santana

A edição do Coachella de 2026 reacendeu discussões sobre os padrões de avaliação das performances de artistas masculinos e artistas femininas na indústria. Dois artistas que se apresentaram como a atração principal do festival, os headliners, concentraram esse debate: Justin Bieber e Sabrina Carpenter. Enquanto Sabrina apresentou um show grandioso, marcado por narrativas, referências cinematográficas, grandes estruturas, coreografias e trocas de figurino, com direito ao seu próprio “Sabrinawood”, Bieber apostou em uma proposta mais intimista, centrada na conexão com o público, sendo um dos pontos altos do show, o momento mais simplório, quando Justin com apenas um laptop e um telão exibe seus próprios clipes e momentos do início da sua carreira no Youtube, cantando e repassando junto com a sua comunidade de fãs, a nostalgia foi o foco principal.
A partir do momento em que surge a pergunta se uma mulher seria ovacionada ao fazer o mesmo, fica evidente que não se trata apenas de diferentes propostas de apresentação, mas sim de uma cobrança desigual.
É explícito que há uma desigualdade na régua avaliativa que analisa as performances dos artistas masculinos e das artistas femininas. Principalmente, devido às normas de gênero e sexismo, a cobrança e expectativa de espetáculos extraordinários e até mesmo inalcançáveis, sempre pesam mais para as bagagens das mulheres na indústria da música.
Algumas das estrelas mais populares do mundo como Beyoncé, Taylor Swift, Britney Spears, Madonna e Lady Gaga possuem shows que são verdadeiros espetáculos com performances teatrais, mudanças de figurino, estruturas exorbitantes e muitas vezes mais de 3 horas de show. No entanto, é notório que essa mesma expectativa não é tão imposta aos homens da indústria da música, considerando, claro, que todo artista tem a sua proposta e identidade na sua arte. Porém, artistas homens como Ed Sheeran, Justin Bieber e Bruno Mars são aplaudidos por suas performances “intimistas”, apenas com violões ou posturas relaxadas e são creditados como autênticos.
Talento artístico não é a questão da discussão, mas sim os padrões duplos que existem na indústria do entretenimento. São impostas às artistas femininas a obrigatoriedade de entregar visuais únicos e inovação a cada novo lançamento, e sempre imergir em uma nova persona. Enquanto os homens mantêm suas carreiras seguindo a mesma identidade e visuais mais descontraídos. Enquanto para eles é visto como uma marca de legitimidade, se as mulheres fazem o mesmo é visto como falta de esforço.
Até mesmo para as artistas femininas que tem propostas de shows mais intimistas, assim como de artistas masculinos, parece não ser o suficiente. Como as apresentações da cantora britânica Adele, que possui uma idealização de performance mais pessoal e focada nos poderosos vocais da artista, ainda não foi o bastante para os grandes veículos de mídia e a opinião geral do público. A artista foi duramente criticada em sua carreira por conta do seu corpo, que não atingia os padrões de beleza, mesmo entregando shows com muita maestria e técnicas vocais excelentes.
Historicamente existe um imaginário muito específico e enraizado em torno do que é ser uma “diva pop”, como citado anteriormente. Isso vai desde cenários, identidades, figurinos, aparência, dança, e vocais impecáveis. O pop se tornou um espetáculo massivo, desde que artistas masculinos como Michael Jackson e Prince reformularam a visão da indústria do que é fazer um espetáculo musical. Até mesmo antes desses grandes astros, artistas femininas nas décadas de 60 e 70, como Donna Summer, Tina Turner, Cher e Diana Ross já dominavam a indústria do entretenimento, preparando o terreno para os artistas posteriores e fundando estéticas na cultura pop que encantavam os olhos do público com muito glamour e brilho.
Enquanto para os homens, as características de um espetáculo pop é visto apenas como um diferencial, para as mulheres se aplica como uma obrigação vitalícia. Quando uma artista feminina entrega uma performance grandiosa, ela estaria apenas fazendo o mínimo, e quando o homem faz o mesmo, é celebrado como excepcional. Ou quando não decide fazer, é apenas visto como identidade e autenticidade. Dois pesos e duas medidas.
Esse padrão é escancarado a quem se propõe investigar quando observamos os exemplos de artistas que optaram por performances mais minimalistas, como, novamente a performance do cantor Justin Bieber, que cresceu em meio aos holofotes, criou um legado memorável com sua coletânea de hits e foi um dos maiores astros do YouTube no começo da década de 2010. Na apresentação de uma das maiores premiações de música do mundo, a edição do Grammy de 2026, o artista subiu aos palcos usando apenas meias e cueca. Com um olhar mais intrínseco e pessoal, a apresentação foi amplamente lida como íntima e ousada pela mídia.
Deixa de ser apenas uma diferença de estilo e se torna um sistema desigual, reflexo de uma sociedade historicamente misógina, quando notamos a recepção ao show da cantora Marina (ex Marina and The Diamonds), no Lollapalooza Brasil 2026, a artista dominou o Tumblr com seu pop alternativo eletrizante também na década de 2010. Neste ano, Marina também optou por um show minimalista, focada na narrativa e na atmosfera com o público, sem trocas de figurinos, e sem grandes estruturas, a cantora priorizou a conexão com sua base fiel de fãs brasileiros, e mesmo os fãs amando o show a reação da internet foi concentrada em apontar o figurino e performance básica como indício de tédio e pouca presença.
Na mesma edição do festival, o cantor Djo, que explodiu mundialmente com o hit “End of Beginning” em 2024 e ator amado pelo público pelo seu personagem Steven Harrington na série Stranger Things, entregou um show visto como autêntico e coerente com a sua proposta de identidade, com uma regata, sua guitarra e sem grandes recursos visuais. Porém, essas questões não foram transformadas em problemas pelo público geral nem pela mídia.
Adicionando mais a discussão, esse desequilíbrio também é perceptível no debate sobre artistas que valorizam performance física e dança em detrimento da performance vocal. Ainda nessa edição icônica, que foi o Lollapalooza Brasil 2026, artistas como Addison Rae e o grupo feminino KATSEYE também foram alvos de críticas no mundinho pop. O portal G1, por exemplo, elegeu o show da Addison Rae como o pior show desta edição do festival, mesmo com a artista se concentrando na performance coreografada, na presença de palco, na cenografia e trazendo até um remix de funk para os fãs brasileiros. Essa posição e receptividade indica que esse tipo de performance é automaticamente inferior, mas o debate não se deu em torno do que foi entregue, mas sim sobre a falta de ‘peso artístico’ para se apresentar no festival.
O caso foi parecido com o grupo feminino KATSEYE, que vem conquistando cada vez mais espaço na indústria do pop, que recebeu diversos comentários na internet criticando a utilização de figurinos “simples demais” e apresentação centrada na dança. O que parece ser ignorado é que o pop é uma linguagem híbrida, onde música, movimento, imagem e voz se convergem e funcionam juntos.
Ainda assim, ao mesmo tempo em que homens se aventuram em uma estética mais performática e espetacularizada, a reação também não é das melhores, chegando até ser desproporcional. Cantores brasileiros como Luan Santana e Jão já foram criticados por investir em figurinos, grandes performances com narrativas visuais e estruturas. Podendo-se perceber que a ideia do espetáculo grandioso seja inconcebível com a masculinidade, além da exigência extrema as artistas femininas, a performance intensa é somente associada a elas.
É naturalizado o artista homem subir ao palco de forma simplória e minimalista, enquanto é incabível para a mulher fazer o mesmo. É preciso justificar tudo e, antes mesmo de subir ao palco, provar o por que que elas merecem estar ali. Em suma, o padrão cultural e social enraizado na nossa sociedade e na indústria do entretenimento difere e impacta o que consideramos suficiente de acordo com o gênero de quem está em cima dos palcos.
Dessa forma, em meio a tantas controvérsias e contradições, a maioria das críticas relacionadas às artistas mulheres parecem desproporcionais e vagas, mais baseadas em preceitos e sensações do que em argumentos reais. Já que ao mencionar que uma apresentação não tem “peso artístico”, que o figurino ou a apresentação foi “simples demais”, certamente não estamos mencionando elementos mensuráveis e técnicos, mas sim apenas reproduzindo uma expectativa histórica de que mulheres precisam se provar o tempo todo para ocupar espaços que homens já ocupam naturalmente.
Esse raciocínio não isenta as artistas femininas de críticas. A crítica é uma parte fundamental da cultura pop e do movimento artístico. O que seria ideal é um olhar mais franco sobre os critérios que são usados para julgar as performances e sobre a cobrança excessiva imposta, sobretudo às mulheres. Até porque, se a régua muda dependendo do gênero do artista que está no palco, talvez o problema não esteja no show.




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