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"Obsessão" transforma amor em horror psicológico de forma sufocante em um dos melhores filmes do ano

  • podcastdepoisdoscr
  • 28 de mai.
  • 4 min de leitura

Por Willian Lira

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Na trama de “Obsessão”, acompanhamos Bear (Michael Johnston), um homem tímido e apaixonado por sua colega de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Sem coragem para confessar o que sente, ele decide comprar um salgueiro supostamente “capaz de realizar desejo” para pedir que ela o ame mais do que tudo. O que parecia uma brincadeira infantil se realiza. Porém, conforme a relação avança, Bear percebe que o desejo realizado está trazendo consequências perigosas: Nikki passa a desejá-lo de maneira completamente obsessiva e destrutiva.


Quero começar destacando o quanto o terror psicológico é uma das vertentes mais fascinantes do gênero para mim. O objetivo aqui não é assustar através de jumpscares baratos ou criaturas aparecendo na tela a cada cena de tensão, algo que acabou se tornando bastante comum em franquias como Invocação do Mal. “Obsessão” aposta em outro caminho: o desconforto constante.


É o tipo de filme que te faz pensar bastante nele após o fim da sessão, justamente pela sensação de que você viu algo realmente diferente. Impressiona ainda mais saber que este é o longa de estreia do diretor Curry Barker, que já demonstra um domínio narrativo e tonal surpreendente, especialmente no controle do ritmo e da tensão.


Sua condução mistura elementos de uma comédia romântica e, gradativamente, vai se tornando um terror cada vez mais incômodo, carregado com momentos de um humor perverso que te faz rir de nervoso. Essa mudança de tom funciona muito bem justamente porque nunca parece forçada, como muitos reclamaram em “A Hora do Mal”, por exemplo. Aqui o desconforto cresce pouco a pouco, até se tornar sufocante.


Curry Barker dedica um bom tempo do longa ao desenvolvimento da relação dos personagens, utilizando isso como base para discutir o tema principal da narrativa. Bear é um homem incapaz de expressar seus sentimentos por medo da rejeição. Quando finalmente conquista a garota dos seus sonhos através do desejo, acredita que terá a relação perfeita. Mas, aos poucos, percebe que sua obsessão em moldar alguém exatamente da maneira que deseja acaba destruindo aquilo que tornava Nikki especial.


O roteiro é inteligente ao nunca tratar Bear como um coitado. Apesar de lidar com a possessividade extrema da namorada, o filme constantemente nos lembra de que tudo aquilo é consequência direta de seu egoísmo. Ele queria ser amado acima de tudo, sem considerar que estava apagando completamente a individualidade da pessoa que dizia amar.


Tudo isso é potencializado em um trabalho extremamente cuidadoso do diretor que usa elementos do cenário, da iluminação e a disposição dos atores para despertar o medo no espectador. Há diversas sequências com sombras e silhuetas que te despertam aquele desconforto de querer olhar e, ao mesmo tempo, evitar enxergar demais. O mesmo acontece em enquadramentos que deixam espaços vazios ao fundo, causando uma ânsia de que algo pode surgir a qualquer momento. Existe uma sensação permanente de sufocamento em qualquer ambiente onde Bear esteja.


Cuidado com o que você deseja…

Imagem: Reprodução
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É impossível não falar sobre “Obsessão” sem destacar a excelente atuação de Inde Navarrette como Nikki. Sua performance é o que potencializa o terror do filme e o leva para outro nível. A jovem que começa sendo extrovertida, gentil e uma companhia agradável, após o feitiço, vai lentamente se tornando apenas uma casca sem personalidade, movida apenas pelo desejo de cumprir a vontade de outra.


É um amor sincero que passa para uma vigilância estranha, depois uma tentativa de agradar constantemente até chegar num ponto onde limites são cruzados e a distância se torna impossível. Pequenos gestos que poderiam parecer românticos, mas que são retratados com uma crueza profunda e incômoda. Até uma atitude simples como velar o sono do companheiro se torna algo perturbador.


E tudo isso funciona graças à entrega absurda de Navarrette. A atriz consegue alternar rapidamente entre atitudes afetuosas, infantis, frágeis, controladoras e a completa perturbação psicológica. É até mais intrigante quando, em certos momentos, Nikki tem breves “lapsos de consciência”, pois é onde você percebe no que ela foi forçada a se tornar.


A grande questão do filme é simples, mas extremamente desconfortável: até onde alguém está disposto a ir para conseguir aquilo que deseja? E, principalmente, até que ponto é aceitável que a pessoa deixe de ser quem é para se tornar o que o outro quer?


O filme utiliza o terror para discutir relações tóxicas, dependência emocional e possessividade de uma maneira extremamente eficiente. Bear, movido pela covardia e pelo egoísmo, transforma a mulher que ama em alguém sem desejos, sonhos ou individualidade, praticamente um robô emocional criado apenas para satisfazer suas próprias necessidades afetivas. Em um dos momentos mais marcantes do filme, Bear pergunta “Será que é tão difícil assim me amar?”. Ele chegou num ponto onde não se preocupa com o que Nikki quer, nem com o que isso faz com ela. Para ele, só importa como isso o afeta porque ela aos poucos está deixando de ser a mulher que ele queria.


E é justamente aí que o filme se torna tão perturbador: isso ainda pode ser chamado de amor? Ou existe um ponto em que o sentimento deixa de ser afeto e passa a ser apenas obsessão? No fim das contas, quem é realmente obcecado por quem?


“Obsessão” é um excelente filme de terror. Incômodo, provocativo, violento, desconfortável são alguns dos adjetivos capazes de descrever a sensação que foi acompanhar a história desse casal. O longa utiliza o horror não apenas para assustar, mas para discutir relações humanas de forma cruel e dolorosamente honesta. Uma estreia impressionante do diretor Curry Barker e uma atuação memorável de Inde Navarrette que encarna com perfeição o amor destrutivo de sua personagem em um longa que continuará na minha mente por muito, muito tempo.


Nota: 9,5

 
 
 

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