Resident Evil (2026): Às vezes, é melhor se afastar
Por Willian Lira

Depois de oito adaptações para os cinemas e uma para a televisão, parecia não haver esperança para a franquia Resident Evil. Algumas obras tentaram adaptar conteúdo demais em pouco tempo; outros desviaram do caminho conhecido pelos fãs e o desagrado dos fãs foi generalizado. É quando surge o diretor Zach Cregger, que havia entregado os bons “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”, e aceita a tarefa de dirigir mais uma adaptação dos jogos da Capcom para as telonas.
Desde cedo, Cregger foi sincero quanto à proposta de seu filme: não seria uma adaptação fiel aos jogos, nem teria os personagens já conhecidos, mas, sim, uma história paralela ambientada neste universo. Muitos torceram o nariz e já o condenaram à prateleira de adaptações ruins de Resident Evil, mas Cregger seguiu em frente e entregou o melhor filme a carregar o nome da marca.
Em “Resident Evil”, acompanhamos Bryan, um entregador médico que aceita um último trabalho antes de encerrar seu expediente: fazer uma entrega no hospital de Raccoon City. O que deveria ser só mais um trabalho corriqueiro se transforma em uma corrida pela sobrevivência quando criaturas perturbadoras passam a cruzar seu caminho.
Zach Cregger é o nome que faz toda a diferença quanto à qualidade deste filme. Além de dirigir, ele também assina o roteiro onde ele cria uma jornada extremamente simples (fazer o personagem ir de um ponto A para um ponto B), mas igualmente bem construída, tensa e até mesmo divertida. Sabiamente, o diretor se livra das amarras mais fortes que teria se assumisse uma adaptação 100% fiel à história dos jogos para contar uma história paralela de um civil que apenas quer sobreviver em meio ao caos.
Além disso, Cregger demonstra mais uma vez um grande domínio sobre como controlar as cenas de terror. Os planos mais demorados e a baixa iluminação do cenário, favorecidos pela excelente escolha do ambiente nevado, criam a sensação de que o perigo pode sugerir de qualquer lugar (além de contar com pelo menos dois ótimos jumpscares que me fizeram pular da cadeira como a muito tempo não acontecia).
Durante toda a jornada, o diretor também aproveita para fazer pequenas referências e homenagens (como os takes em primeira pessoa) aos fãs dos jogos, sempre reconhecendo o valor do videogame que o inspirou.
Outro acerto da produção foi ter escolhido Bryan como o condutor dessa história. O personagem, vivido por Austin Abrams, é apenas um cidadão comum que precisa aprender a sobreviver a situações inimagináveis. Diferente dos personagens que conhecemos dos jogos, ele precisa aprender a atirar, a se defender. Tudo isso torna sua jornada muito identificável e gera empatia por ele, mesmo em suas atitudes mais burras.
Aos poucos, conhecemos o personagem a ponto de não quererermos que nada de ruim aconteça com ele. E mesmo não sendo o principal foco do filme, gosto de como o roteiro aproveita sua trajetória para explorar, ainda que brevemente, um comentário sobre a precarização do trabalho dos entregadores.
Como muitos já apontaram, realmente há uma grande dose de humor neste filme, e isso pode ser o que afastará os fãs mais apegados à obra original. Em meio ao terror, o diretor sempre encontra uma brecha para encaixar uma tirada cômica. Não nego que isso torna a experiência mais divertida, mas também não nego que certas piadas acabam esvaziando o peso de cenas mais impactantes seja visual ou dramaticamente. Apesar de ter dado boas risadas com o filme, algumas piadas a menos fariam bem à obra, permitindo que determinados momentos tivessem um impacto maior.
Gostaria de destacar também o ótimo design de produção que, além dos cenários, deu vida a criaturas impactantes. Alguns dos momentos envolvendo os infectados são muito bem realizados pela equipe de efeitos práticos, cujo trabalho torna tudo mais real e mais grotesco de se ver. Já os efeitos digitais, mesmo que visíveis em alguns momentos, cumprem seu papel e não comprometem os momentos mais tensos.
Vale também um destaque para a trilha sonora composta por Hays e Ryan Holladay. Alguns dos temas, principalmente os do início do filme, marcaram pela aparente inspiração na clássica trilha de “Halloween” (1978) composta por John Carpenter.
Muitos vão afirmar que o terceiro ato é onde o filme perde a força demonstrada em sua primeira hora. De fato, as melhores sequências estão nos primeiros ataques dos infectados, mas o longa não me perdeu tanto assim em seus finalmentes. As tiradas cômicas aumentam e há um maior exagero, mas o final (ouso dizer) corajoso me marcou e me fez dar uma passada de pano para qualquer eventual problema nos minutos finais.
“Resident Evil”, de Zach Cregger, decide não seguir a mesma rota das tentativas anteriores e encontra um caminho que tende a funcionar para todos os públicos. Ao não recontar a história de Leon, Jill e companhia, o diretor evita repetir uma fórmula que já foi explorada anteriormente. Ao mesmo tempo, não abandona por completo os elementos únicos desta franquia, construindo uma história “secundária” que favorece o público menos familiarizado com os jogos ao entregar uma divertida aventura de horror, mas sem esquecer quem realmente vai ao cinema para ver um filme com este nome.
Pode não ser a adaptação que os fãs queriam, e o humor do filme pode afastar ainda mais aqueles que esperavam uma experiência mais próxima dos jogos. Ainda assim, é uma obra bem realizada, bem dirigida, tensa, engraçada (às vezes até demais). Ao meu ver, não desrespeita o jogo que serviu de alicerce para esta obra. Então, pode-se considerar este filme um win-win.
Nota: 8,5.




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