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Bala Desejo além do meme e do elitismo da MPB

  • podcastdepoisdoscr
  • 21 de mai.
  • 4 min de leitura

Texto por: Daniel Teixeira Lima 


Imagem: Reprodução
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Mesmo sendo uma das bandas mais comentadas dessa nova geração da MPB, muita gente só conhece o Bala Desejo através do meme envolvendo os integrantes, após participarem do programa “Cultura Livre” que é um programa que foi iniciado no rádio em 2009, apresentado por Roberta Martinelli e em 2011 ele foi para a TV  Cultura. O programa busca divulgar artistas independentes e alternativos da MPB. O foco é os músicos irem até lá, apresentarem algumas de suas músicas, e conversar um pouco sobre sua carreira, processo criativo e etc.


No início de toda edição do programa, a apresentadora Roberta Martinelli inicia com a frase: “Cultura livre por: …” e o nome do convidado daquele dia. A ideia é que o convidado defina o que significa o programa “Cultura livre” para ele, ou até mesmo dizer o que seria a ideia de cultura livre para além do programa.



E foi aí que surgiu o meme do Bala desejo. Mas afinal o que raios é “sim sim sim”?


A banda de MPB formada por Dora Morelenbaum, Julia Mestre, Lucas Nunes e Zé Ibarra, surgiu no Rio de Janeiro na época da pandemia. Com todo o mundo isolado em casa, o grupo de amigos resolveu se juntar para enfrentar aquela situação fazendo o que sabem fazer de melhor, arte.


Nesse período juntos, eles foram extremamente produtivos artisticamente falando, e fizeram diversas composições e arranjos. Algumas viraram canções que posteriormente entraram em álbuns solo de cada um, mas boa parte acabou virando parte do primeiro e único álbum do Bala Desejo, o “Sim Sim Sim”, lançado em 2022.


Segundo os próprios integrantes, eles queriam trazer uma vibe mais alegre com suas músicas, já que o momento era de muita tristeza, incerteza e medo. Eles cantavam sobre tudo aquilo que estavam privados naquele momento de pandemia. carnaval, festa, calor humano, amor.


Os integrantes relatam ter sentido uma sensação maravilhosa naquele momento de composição. Quando começaram a cantar e dançar juntos, perceberam que algo muito bonito e real estava sendo criado, e eles queriam passar isso para o público, divulgando o que estavam criando para que todos pudessem sentir aquilo que eles estavam sentindo.


É interessante pensar que o Bala Desejo não surgiu como uma banda “fabricada”. Eles eram realmente amigos e conviviam muito durante a pandemia. O clima de casa compartilhada e convivência intensa acabou virando parte da identidade do grupo. Por isso, muita gente associa o Bala Desejo aos Novos Baianos não só pelo som, mas pela ideia de coletivo artístico vivendo música o tempo todo.


Imagem: Reprodução
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Todos os quatro integrantes do grupo já estavam profundamente envolvidos com a música. Dora é filha dos músicos Jaques Morelenbaum e Paula Morelenbaum. Jaques trabalhou durante décadas com um pessoal como Caetano Veloso, Tom Jobim e Ryuichi Sakamoto. Então, Dora cresceu literalmente dentro de estúdios, ensaios e shows. Dá pra sentir nela uma influência muito forte de bossa nova, MPB sofisticada dos anos 70, jazz vocal e harmonias elaboradas. Ao mesmo tempo, ela tem um jeito mais leve e pop de cantar. 




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O Zé Ibarra já vinha sendo visto como um prodígio da nova MPB antes mesmo do Bala Desejo surgir. Ele participou da banda Dônica, que ficou conhecida quando o Milton Nascimento elogiou eles publicamente e começou a colaborar com o grupo. O Zé tem uma formação musical muito técnica: estudou violão, harmonia e composição desde novo. Ele bebe muito da fonte do Clube da Esquina e gêneros como bossa nova, folk e rock progressivo leve. A voz dele costuma ser comparada com cantores clássicos da MPB porque ele canta de um jeito muito limpo e melódico.



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Já o Lucas Nunes talvez seja o menos “famosinho” dos quatro. Ele também participou da Dônica e trabalhou bastante como produtor, arranjador e guitarrista. O Lucas é muito influenciado por coisas como: guitarra psicodélica, samba-rock, MPB setentista, música latina e groove vintage. Ele é um dos responsáveis pela cara sonora mais “analógica” da banda. Embora seja menos midiático que os outros integrantes, muita gente da cena vê ele como um músico extremamente importante na construção estética dessa nova MPB carioca.



Imagem: Reprodução
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Julia Mestre também vem na cena musical do Rio e cresceu num ambiente artístico e começou cedo em bandas independentes. A estética dela puxa mais pro pop retrô, disco music, soft rock, yacht rock e MPB radiofônica dos anos 80. Tem muita influência de Rita Lee, Marina Lima e daquela estética meio cinematográfica da música brasileira antiga. Dentro do Bala Desejo ela era talvez a figura mais performática e pop. A carreira solo dela segue muito nessa linha meio nostálgica, brilhante e sentimental.



O Bala Desejo é frequentemente usado de exemplo como sendo uma banda de “nepo-babys” ou até mesmo para reforçar a ideia de que a MPB é elitista e feita por pessoas de classe média alta para outros da mesma classe, e que não conversa muito com a vivência da maioria do povo brasileiro. Mas suas letras falam de coisas gerais e até profundas como: sentimentos amorosos, desejos, alegrias, tristezas e tudo aquilo que atravessa a alma. Vai muito além da classe social, pois os sentimentos são democráticos e todos podem sentir independente da condição financeira. O amor não tem classe social.


Um grupo que mantém viva aquela estética tradicional da MPB que muitos sentem falta nos dias atuais, trazendo letras com conteúdo e arranjos ricos em musicalidade.


Há quem diga que o que eles fazem é só uma receita pronta e requentada de coisas que já foram feitas antes e que não traz nada de novo, mas é aí que está o erro de muitos. Eles pegam referências e coisas que eles gostam e consomem e as transformam para criar coisas novas, algo que seja mais a cara deles.


Cheios de personalidade e sem medo de ser quem são, continuam produzindo arte, cantando e encantando a todos os seus fãs, que seguem ansiosos para os seus novos projetos.


Imagem: Reprodução
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