"O Diabo Veste Prada 2" retorna vestindo os cenários da crise no jornalismo, indústria da moda e a era digital
- podcastdepoisdoscr
- 3 de jun.
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Texto por Pedro Santana

Ainda que envelhecendo como um bom vinho, o universo de “O Diabo Veste Prada" retorna duas décadas depois não apenas como uma sequência nostálgica, mas como um retrato direto das transformações no mundo da comunicação. O filme mergulha no colapso da mídia impressa, na incorporação agressiva das inteligências artificiais e na crescente dependência do jornalismo em relação aos grandes conglomerados e bilionários que hoje ditam as regras do jogo.
Se no longa original, as redações eram vibrantes, as revistas vendiam e as matérias encontravam os leitores, a sequência apresenta um cenário drasticamente diferente. O jornalismo contemporâneo aparece fragilizado, pressionado por algoritmos, análise de dados e interesses publicitários, onde a lógica da internet redefine não apenas o conteúdo, mas também quem sobrevive dentro dessa indústria.
A revista fictícia Runway, inspirada na Vogue desde o primeiro filme, agora luta para preservar sua autonomia em meio a esse novo ecossistema. No centro disso está a temida Miranda Priestly, que deixa de ser apenas a figura implacável e intocável do passado para assumir contornos mais complexos. Enfrentando um conflito geracional e profissional, Miranda se vê pressionada por forças que já não pode controlar completamente, sendo obrigada a negociar sua visão criativa com as demandas do mercado.
É nesse contexto que Andy Sachs retorna. Após enfrentar uma demissão em massa no jornal onde trabalhava, uma das cenas mais emblemáticas e dolorosamente atuais do filme, Andy volta ao universo das revistas carregando não apenas experiência, mas também as marcas de um mercado que já não valoriza estabilidade ou autonomia da mesma forma. Sua presença funciona como ponte entre dois momentos da indústria, o passado e o presente.
O filme acerta ao utilizar a nostalgia com inteligência. Em vez de se apoiar em referências vazias ou momentos pensados apenas para viralizar, a narrativa resgata elementos do original, como os figurinos impecáveis, o humor ácido, e participações mais que especiais que se conectam bem com a trilha sonora do filme. Ainda enquanto os insere em um contexto mais duro e realista. Personagens como Nigel continuam trazendo leveza e carisma, especialmente em sua relação com Andy, mas agora também carregam um senso maior de urgência e adaptação.
A personagem Emily retorna em uma posição de prestígio como embaixadora de uma marca de luxo, mas ainda carrega marcas evidentes de sua passagem pela Runway. Mais do que um alívio cômico, ela surge como um retrato dos bastidores competitivos da indústria da moda, onde alianças e traições caminham lado a lado. Nesta nova fase, Emily encarna a lógica dos típicos “puxões de tapete” e se aproxima de um grupo ainda mais poderoso, o dos bilionários com capitais ultra concentrados. Ao se associar aos interessados em comprar a revista Runway, sua trajetória evidencia como ambição e sobrevivência se confundem nesse mercado.
A situação aponta movimentos do mundo real, como a crescente influência desses investidores com grande poder econômico sobre veículos de comunicação e editorias culturais. Um cenário que, embora soe absurdo, retrata precisamente a realidade. No fim, na indústria da moda e da comunicação, a ficção já não se distancia tanto assim da vida real.
Miranda, por sua vez, continua difícil de ignorar e se destaca fortemente nessa nova fase. Muito além de atitudes prepotentes e egos inflados, a personagem de Meryl Streep se revela como alguém tentando preservar o trabalho ao qual dedicou a vida. No entanto, a Runway já não é mais um polo isolado de poder dentro da indústria cultural, ela agora é apenas uma peça em um sistema maior, sustentado por investidores invisíveis e interesses financeiros que moldam decisões editoriais.
Após 20 anos jogando casacos e sendo o pesadelo de suas assistentes, Miranda já não ocupa mais a posição de autoridade absoluta. Em vez disso, surge como uma sobrevivente, tentando manter algum nível de autonomia em um ambiente onde o controle está cada vez mais concentrado nas mãos de poucos.
Nesse cenário, O Diabo Veste Prada 2 propõe uma pergunta: quem são, afinal, os verdadeiros vilões dessa história? Ao equilibrar humor, sarcasmo e drama, o filme desloca o foco das relações individuais para estruturas muito maiores. Um sistema que engole profissionais apaixonados, que ainda tentam se adaptar aos novos meios de comunicação, mas prende a autonomia, e transforma talento em produto.
Mais do que uma continuação, a produção se apresenta como um comentário de denúncia sobre o presente. Um lembrete de que, por trás do glamour e da estética impecável, existe uma indústria em constante transformação, e perigosamente, cada vez menos humana e autônoma.




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